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Para além da imagem, o que os olhos não veem

 

Por se tratar de uma arte mecânica, sustentada nos efeitos da luz, a fotografia carregou por longo tempo a crença no aspecto fidedigno de seus registros. Navegando na contracorrente, e desde as vanguardas históricas, alguns artistas preocuparam-se em problematizar a participação da fotografia na arte. A poética de Vilma Sonaglio tem se debruçado há alguns anos na investigação crítica sobre a transparência da imagem fotográfica, partindo dos próprios elementos técnicos que incidem sobre a sua formação e especificidade. Nesta complexa busca, as focagens podem ser desajustadas, os recortes e ampliações repensados, assim como os detalhes coadjuvantes supervalorizados. Na exposição O que os olhos não veem a artista propõe outra estratégia, tendo como ponto de partida o uso da abertura de diafragma, combinado a uma lente de aproximação, para observar aspectos prosaicos de seu cotidiano: aviões que cortam os céus noturnos da cidade do México. A coleta das imagens revela uma aposta positiva na mecânica do aparelho fotográfico, reconhecendo-lhe a potencialidade, como uma espécie de prótese do olhar, para a produção de visões quase abstratas acerca de um real que o olho humano não alcança. Mais do que uma simples trucagem relacionada à velocidade da tomada e à aproximação ao objeto do registro, as fotografias daí resultantes tratam de uma consciência do tempo e da sua espessura de duração, alusivas à experiência individual de adaptação aos deslocamentos, reais ou não, que a vida nos impõe. No seu devir imagem, o recorte temporal do percurso de um corpo no espaço torna-se um esquema gráfico, um diagrama, uma linha que aponta para uma direção, como a inscrição na eternidade de um desenho de luz efêmero. Entretanto, em sua necessidade de produzir um olhar que se volta para o céu, as imagens de Vilma se aproximam das reflexões de Kasimir Malevitch no início do século XX, ao revelar seu apreço pela fotografia de aviação, com suas aeronaves geométricas e seus céus neutros, como inspiração para o suprematismo pictórico. Do mesmo modo que Malevitch, Vilma deseja a não objetividade da arte como chave para pensar o mundo, ainda que para isso também se sirva da objetividade, sempre relativa, da fotografia como recurso.

Alexandre Santos

Crítico de arte

Porto Alegre, maio 2013

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