Conjunto (1) e Conjunto (2)
No final de 2005, um grupo - cinco artistas e eu - foi convidado a ocupar a galeria Lunara, na Usina do Gasômetro. Essa iniciativa, da Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Prefeitura de Porto Alegre, disponibilizou dois períodos de 2006 para que apresentássemos os resultados de uma discussão periódica.
O grupo começou a reunir-se no dia 20 de fevereiro de 2006. Desde então, mais ou menos duas vezes por mês, nos encontrávamos no atelier da Vilma para expor ideias, discutir proposições, comentar o que andávamos pensando sobre este projeto tão intangível que tínhamos nas mãos.
Essas reuniões foram pautadas, principalmente, pelos desafios do espaço em questão e pela necessidade de experimentar uma convivência entre poéticas distintas. Foi pensando nesses dois pontos que surgiram as primeiras indicações conceituais que o grupo trabalhou, tais como o sempre renovado diálogo entre arte e lugar, e a premência de ações alternativas para a realização de projetos em artes visuais.
Desde o início dos nossos encontros, tínhamos a ideia de intensificar as características sombrias da Lunara, a sensação de desorientação que se experimenta neste espaço, a vertigem do buraco da tremonha, a pouca luz do lugar, enfim, os elementos que constroem a identidade da galeria. Acreditávamos que, com isso, conseguiríamos minimizar as limitações estruturais deste espaço expositivo. Além disso, queríamos que o conjunto das obras criasse uma unidade, sem, contudo, anular a potencialidade individual dos trabalhos.
Como todos os artistas envolvidos neste projeto investigam problemáticas da imagem foto-sensível - enquanto narrativa ou campo artístico-, os primeiros resultados de tal associação cruzavam as noções de vertigem das imagens indefinidas ou distanciadas, com a própria sensação de instabilidade física da galeria Lunara. Vídeo, fotografia e luz enquanto matéria foram os suportes explorados por esses artistas, com o objetivo de, juntos, estabelecerem um diálogo intenso entre as manifestações e o espaço.
A CONJUNTO (1) abriu no dia 16 de maio de 2006. E os dias posteriores foram certeiros em nos mostrar uma série de dificuldades e limitações da galeria Lunara, bem como os acertos de algumas obras e também os pontos cegos do nosso projeto de ocupação desse espaço expositivo.
Se é possível considerar que de fato a exposição criava um "clima" único, coeso, onde quase não se percebia a existência de múltiplos artistas ocupando aquele espaço, também é preciso apontar para a dificuldade do público em reconhecer algumas obras e perceber, através da exposição, as motivações do projeto e suas características.
Adriane Vasquez apresentou o trabalho "Vermelho e Preto", cinco backlights que acendiam alternadamente, criando uma espécie de narrativa sombria e aleatória entre as imagens. Gustavo Jahn, com o seu vídeo "Tapete Mágico", projetado em uma tela instalada no buraco da Tremonha, intensificava o ponto de vista vertiginoso do lugar. "Horizonte", de Katia Prates, reproduzia em 360° a vista ao redor da usina do Gasômetro, trazendo a amplitude do espaço externo para as paredes negras da galeria. Luiz Roque instalou quatro metros de néon no ambiente da Lunara. "Linha Vermelha" dialogava com a arquitetura deste antigo forno, criando uma nova perspectiva espacial para a galeria. Vilma Sonaglio, com o trabalho "Tremonha", reproduzia a imagem do fosso da Lunara. Ao sair do elevador, o espectador era levado a sentir, sob seus pés, a instabilidade experimentada nesse ambiente.
Como em toda exposição, as arestas marcam mais que os acertos. E cientes das dificuldades voltamos a nos reunir para novamente pensar sobre a Lunara: o que tinha dado certo, o que não funciona, o que nos incomoda no espaço, o que é possível mudar, o que é impossível alterar quando se trata de uma galeria dentro de um prédio tombado e situada entre um elevador e uma série de salas de trabalho.
As reuniões para a CONJUNTO (2) começaram em julho, agora com algumas utopias descartadas. A Lunara é um lugar de passagem, cujas saídas não têm portas. Ponto. Ainda, é impossível 'desenhar' a luz da galeria - ou seja, obras dependentes de uma iluminação ficam para outra vez. Mas será que não poderíamos aproveitar justamente estes desafios? Pensando nisso, demos um giro de cento e oitenta graus: fugimos do breu que deu o tom da primeira ocupação da galeria, talvez também buscando a saturação, mas agora pelo excesso de luz.
Esta segunda ocupação da Lunara abriu no dia 25 de outubro e, ao invés de ocupar a Tremonha, ilumina este buraco com luz de serviço, ao invés de tentar fechar as entradas da galeria, deixa que o exterior mantenha a sua relação com este espaço, ao invés de ocupar os painéis expositivos - emoldurantes e seletivos - busca as paredes irregulares e disformes do prédio para a instalação dos trabalhos.
Adriane expõe uma justaposição de fotos do deserto de sal boliviano, onde figuras não identificáveis e incompletas vagam por um lugar também sem referências, indomável pela sua aridez tão serena. Gustavo apresenta o vídeo "Pyramid TV", cuja estrutura do suporte recorta a imagem, ao mesmo tempo selecionando o que vemos e desviando a nossa atenção. "Convexos", da Katia, uma bola de espelhos suspensa no vão da galeria, absorve todo o espaço, as obras expostas, as pessoas que ali circulam. O trabalho "Exit" do Luiz também nos transporta para outras dimensões, através de rastros fugidios de aviões. E o trabalho da Vilma, uma fotografia da porta do atelier onde nos reunimos durante todo o ano, não só presentifica esse outro lugar de convivência para nós, como novamente intensifica uma das características desta galeria: muitas saídas físicas, agora incorporadas como inspiração.
As relações que podemos estabelecer entre as duas experiências, para além de comparações qualitativas, indicam a continuidade de uma mesma discussão: como enfrentar um lugar, respeitando suas características, aproveitando-se delas, e, principalmente, buscando uma convivência entre proposições onde o conjunto de trabalhos possa significar a construção de um campo de sentido.
Talvez o que resuma melhor as diferenças e proximidades das duas ocupações da Lunara seja a frase bem humorada da Katia, na abertura da Conjunto (2): "olha as curiosidades que botei reparo: a Adri que tinha cabeças, agora tem corpinhos descabeçados; Gus que tinha uma cidade, ficou com uma quadra; Luiz que coloriu o espaço todo de vermelho com uma linha, está com linhas reduzidíssimas sobre o azul; Vilma que mostrou o buraco, agora fechou um talvez vão com uma porta; os meus 360º externos se tornaram internos. Sei, sei, é bem mais complicado, mas é assim também, não?"
Enfim, é preciso dizer que saio imensamente feliz por ter feito parte de uma iniciativa tão rica e potente, onde toda uma série de conceitos e questões filosóficas da arte, envolvendo a sua relação com o mundo, pôde ser mais do que debatida, vivenciada. Agora é pressionar (com carinho) para que esse projeto continue sendo realizado pela Prefeitura. E aí outros artistas e pesquisadores também se defrontarão com a esfinge da Galeria Lunara: decifra-me ou te devoro. Nós sobrevivemos.
Gabriela Motta
Novembro 2006