top of page

 

 

O SENTIDO DA MATÉRIA: “...do pó ao pó...aqui”

Impregnada pelos estudos sobre a Metafísica, que considera muito maior o invisível que o visível, a transitoriedade da matéria e a busca pela essência das coisas do mundo, Vilma Sonaglio apresenta essas proposições conceituais com a exposição de fotografias “...do pó ao pó...aqui...”, no Paço Municipal de Porto Alegre. Assim, o fio condutor dos trabalhos abre à percepção de questões referentes aos sentidos da matéria, que carregam indagações sobre a finitude existencial. 

Para pensar o tempo da matéria, a artista fotografou o espaço subterrâneo do local da exposição por entender que, como ela própria diz, “é um porão que lembra um depósito, quase um cemitério.”  O material das paredes de tijolos aparentes, possibilita “reduzir as imagens ao pó de pó.” O sentido conceitual para a exposição está, portanto, na matéria constituinte do tijolo que é o próprio pó, tanto na sua origem, como no que pode se transformar: um passado, um presente e um futuro, como o processo do corpo que se desmaterializa em sua fisicalidade. Embora o foco dessa exposição seja o espaço físico fotografado, o corpo, que esteve presente em outros de seus trabalhos mais antigos, aparece de forma simbólica, como evidencia o título da exposição. Para Vilma Sonaglio, “do pó a gente veio, ao pó a gente regressa. É a trajetória da matéria e toda a matéria, um dia, se transforma em pó.”

Pode-se ver confrontada a matéria do real com as transformações dessa matéria pelos códigos fotográficos. Mesmo que as imagens originárias possam referenciar o local da exposição, estas não mimetizam com o espaço. A luz e o preto e branco, ao longo de sua trajetória, agem como protagonistas formais. Para o abrandamento do princípio de realidade, a artista procura criar uma desrealização das imagens, não somente ao produzi-las em preto e branco, mas, também, por modelar a matéria fotográfica criando apagamentos, retirando muitos dos meios-tons, acentuando o contraste entre zonas de intensa luminosidade e outras enegrecidas. A imagem-luz é dotada da dimensão temporal, porque é quase impossível pensar a luz, sem pensar o tempo, como lembra Jacques Aumont. Os pontos de luzes valorizam texturas da matéria e criam contrastes com as zonas planificadas escurecidas, que reforçam o caráter de abstração de algumas das imagens e evocam a linguagem da gravura. O que essas sintaxes de matérias fotográficas mostram, são ficções documentais do ambiente do Paço Municipal. Sendo o espaço muito sufocante, como reconhece Vilma, o formato horizontal das fotografias, foi escolhido pela “vontade de introduzir janelas e horizontes.”

A exposição de Vilma Sonaglio, ao discutir sobre a transitoriedade da matéria, condensa suas percepções metafísicas; as luzes arrebatam fluxos de tempos e os apagamentos nas bordas das imagens se comportam como algo que se esvai, “...do pó ao pó... aqui.”

Niura Legramante Ribeiro

Instituto de Artes, UFRGS

Março 2017

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Instagram Icon
bottom of page