Exponha-se à luz
A exposição “ViCeVeRSa...pode não ser o que é”, da artista Vilma Sonaglio, apresenta obras de três séries fotográficas iniciadas durante o período de isolamento social, em março de 2020.
Vilma, num ato de resistência, passou a desenvolver estratégias e procedimentos procurando traduzir esse tempo singular. Em seu confinamento, iniciou registros com
fotografia mobile e manteve um certo ‘diário’ intitulado Hoje..., que foi concebido para compartilhamento online, em plataformas de relacionamento social. O processo - que mais tarde teve continuidade com o uso da câmera digital - resultou no trabalho Do quarto à cozinha, contemplado pelo edital Arte como respiro, do Itaú cultural. No catálogo, Vilma publicou “A luz que espia pelas imperfeições do contorno da cortina do quarto, sempre observada, mas não registrada, os pontos brancos remetem a um dos meus projetos em desenvolvimento...do Pó ao pó.” Ainda que Vilma mencione o percurso feito em sua casa e alguns objetos, as imagens mantêm sua autonomia, é como se não procurassem referências no mundo exterior, mas na realidade da própria imagem, essas fotografias recentes não parecem se preocupar com o tornar visível e sim com o visível ele mesmo. No espaço do que é deixado invisível para nós, tais imagens se abrem para contemplação.
Para onde tais fotografias apontam?
Man Ray poderia acender um cigarro e dizer: Minha cara “confidências abertas estão sendo feitas todos os dias e resta ao olho treinar-se para vê-las sem preconceito ou contenção” e a essa afirmação, quem sabe, Moholy-Nagy lhe respondesse “isto não é o suficiente, nós desejamos produzir sistematicamente, pois é importante para a vida criar novos relacionamentos.” Eu poderia iniciar - Como a artista encontra os ‘sinais’, que plano de ação estabelece a partir do visível? As fotografias recentes têm como base a volatilidade do registro digital e conformam-se no quadrado preto. E François Soulages talvez interrompesse a conversa dizendo “Não podemos esgotar uma foto, pois, por meio dessa tensão entre seu material e seu referente para sempre perdido, ela nos escapa como nos escapam o mistério do outro, a realidade do mundo exterior, o problema da existência, a separação do passado, o enigma da morte ou a identidade de nosso eu.” Adolfo Montejo Navas arremataria “Qualquer um que trabalhe com a imagem fotográfica em suas múltiplas estratégias sabe que o que está oculto é maior do que o que se revela (e não estamos entrando em essências Heideggerianas).” Seu pensamento me conforta. Os enigmas não serão decifrados agora.
Nas fotografias criadas por Vilma Sonaglio as áreas claras parecem surgir de uma noite enluarada. Serão grãos ou poeira de estrelas? Carbono ou éter? Assim como em suas outras séries, as fotografias atuais são majoritariamente em preto e branco, e geralmente carregadas de preto em highlights. Preto é fundo, preto é figura, preto é sombra, é soma, como escreveu - “presença cega de conteúdo”. Seu interesse pelas diversas gamas de preto se evidenciava já nas séries fotoquímicas do final dos anos oitenta, quando estruturou a base de sua obra com o uso da óptica mecânica e a expertise de manuseio dos materiais químicos, que ela mesma manipulava para ampliar suas cópias no laboratório. Na época o seu processo de revelação encadeava um rigoroso planejamento prévio com o uso de uma ‘escrita automática’ na escuridão da sala de luz vermelha.
As três séries: Hoje..., Sopro... e Transbordo....
A série Hoje..., que contempla o conjunto apresentado no percurso Do quarto à cozinha, mencionado anteriormente, aproxima-se de estratégias e intenções da chamada fotografia concreta, coisas do mundo encarnado, autorreferente, como definido por Gottfried Jäger, “Elas criam um novo mundo. Não são abstrações de algo, ao serem concretas, são algo novo. Elas voltam sua atenção para sua própria imagem no conceito mental dessa imagem”. Essa aproximação parece fazer sentido, pois suas fotografias criam um mundo a partir de sua concretude - um enquadramento preto, com alguns elementos em branco que juntos evidenciam a superfície plana e referem-se ao fazer fotográfico -, mesmo quando reconhecemos, no quadrado preto, os pontos brancos, que ora são a luz pela cortina, ora são sal ou farinha. Entretanto o título da série – Hoje..., sinaliza outras possibilidades. O título não é - pontos de sal sobre quadrado preto -, não se trata de uma tautologia ou da abordagem autorreferente sobre o próprio fotografar, longe disso, essa série de fotografias possibilita associações imagéticas simbólicas, como vistas por Vilma “Na cozinha a cada grão de sal, a cada farinha derramada se transformam em constelações, outros universos possíveis e céus particulares se moldando como ficções documentais do ambiente.”. Aqui se trata, como diz Adolfo Montejo Navas, de “enxergar as coisas não em seu absoluto invariável, olhar codificado, senão em sua variante relação, em outro plano de entendimento e percepção”.
Já a série Sopro... foi construída como uma metáfora para representar a tormenta pela qual o planeta Terra está passando. Que sopro é esse? A pausa forçada pelo isolamento social, provocou efeitos inimagináveis, um deles devido a redução da movimentação das pessoas pelo planeta. Vivenciamos, então, como consequência, uma temporária redução dos gases poluentes, causadores do efeito estufa. Diante dessa constatação, Vilma sentiu um sopro de utopia em meio ao terror provocado pela disseminação da doença e das mortes. Ela, num primeiro momento, utilizou imagens do planeta, apropriadas de sites especializados na Internet, como elemento simbólico. Na etapa seguinte, o processo, para demonstrar metaforicamente sua intenção, envolveu um software de edição de imagens, deixando um rastro no objeto, imitando a presença de uma tormenta. As fotografias desta série resultam, formalmente, na presença da circunferência terrestre borrada sobre o fundo, que é um quadrado preto, seria uma evocação do quadrado preto de Malevitch?
A série Transbordo... foi produzida a partir das janelas do apartamento onde morava, fotografou os prédios vizinhos, durante a noite, com o uso de teleobjetiva. Realizada em 2021, é a única série que tem alguma cor. Nas cenas, os brancos, amarelados e azulados, vindos da luz das janelas vizinhas, tornaram-se, pela edição intencional, manchas luminosas. Referem-se ao que não pode ser contido, e carregam a vontade de traduzir o extravasamento do movimento das pessoas impacientes, por todos os lados. Quando impressas, retornarão materializadas em pura opacidade.
Em 1997 Vilma escreveu “A não objetividade figurativa da forma, dá lugar a paradoxos perceptivos, onde o que não é visto tem importância equivalente ou mais significativa do que aquilo que é visto.” O que Vilma aponta não está escondido, está na imagem. Traduzir, decifrar são caminhos para nos aproximarmos de seus enigmas, assim como o não saber. São imagens para sentir, inspirar, respirar
Elaine Tedesco
Setembro 2021