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Do in(di)visível ao atemporal

 

Um dos mais interessantes paradoxos das artes visuais instala-se na evidência de que os sentidos invocados pelas formas podem persistir na pura invisibilidade.

Outro aspecto interessante do universo constituído pelo conjunto das imagens produzidas pelas sociedades humanas, ligadas ou não às atividades artísticas, é que alguns símbolos se repetem incansavelmente, das mais variadas maneiras. 

Pontos, círculos, espirais, são, em muitas culturas, elementos dinâmicos, que evoluem a partir de uma origem comum. Cruzes,  quadrados e retângulos formam-se pelo cruzamento de linhas verticais e horizontais. Elevação espiritual e experiência terrena nutrem as mais diversas leituras simbólicas dos elementos geométricos. 

Para tornar o assunto ainda mais complexo, é preciso lembrar que as imagens pré-existem mentalmente. Imagens surgem a partir de ideias. Torná-las visíveis tem sido o desafio dos artistas visuais.

Interessada nos aspectos reflexivos do processo criativo, Vilma Sonaglio pergunta-se constantemente qual é o lugar do pensamento.  A ideia de produzir uma obra imagética, que se apresente plena de materialidade, poderia, por exemplo, fundir-se, com o conceito de uma “parede quântica”, uma espécie de portal para outras dimensões da experiência humana?

Em busca de respostas para os problemas colocados, a artista, que já teve grande familiaridade com os cristais de prata e com a vida incessante dos antigos papéis fotográficos, usa agora as tecnologias digitais para ativar conhecimentos milenares. 

Negando a sua vocação original de prova incontestável dos fatos ocorridos, a fotografia, enquanto dispositivo de captação daquilo que é efêmero e fugaz, assume outra missão. Passa a funcionar como um receptáculo de experiências espaço-temporais que existem para além das formas perceptíveis pelos órgãos da visão. 

Ora, se a fotografia sempre esteve ligada à morte, já que suspende visualmente um processo dinâmico, onde residiria a vida? Ou ainda: num método de gradual redução das imagens através dos recursos técnicos, qual seria o limite máximo de existência de uma imagem? Recentemente, Vilma Sonaglio já nos mostrou que uma imagem pode ser reduzida ao pó, invocando tanto o início primordial quanto a finitude das coisas.

No conjunto de trabalhos aqui apresentados, as superfícies planas dos papéis fixam não apenas as formas cristalizadas, de vida interrompida, mas os seus sentidos imanentes, que desafiam a passagem do tempo – esse tempo inesgotável que se estende para além da matéria. 

Aqueles pontos iluminados que podemos ver, contra fundos negros, são indícios de estruturas em movimento.  Embora nos apareçam em duas dimensões, foram produzidas espacialmente, e projetam-se para fora dos planos bidimensionais e das janelas temporais. 

Tocadas pela experiência transcendental, as imagens  tendem a ultrapassar os limites da própria materialidade e se apresentam como processos de conhecimento em constante transmutação.  

Somos o sal do mundo, nos diz a artista. Somos as partes e o todo. Temos a opção de temperar e saborear a vida (e, como consequência, fugir da intragável esterilidade da ignorância). Somos a terra, as folhas secas, as metades que se procuram. 

Somos a espiral gerada pelo movimento de um ponto. Somos o círculo perfeito, divino, sem início nem fim, que não subtrai nem retrocede, e mesmo no mais profundo breu, quando todas as esperanças parecem se esvair, podemos desenhar com luz, numa quase dança, os símbolos que nos conectam com universo.

Neiva Bohns

Abril 2017

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