top of page

Essa coleção de vagas imagens sem faces definidas cumpre a função de lembrar daquilo que nunca existiu. Ou do que nunca foi conhecido.

Opacos, os retratos pelo avesso falam das impossibilidades da fotografia como recurso de apreensão da realidade. Evitam mostrar o riso, a pose, o artifício da felicidade instantânea. Negam aquilo que preferíamos ver, e falam de um outro tipo de ilusão, reproduzida em matéria mais fluídica (e nem sempre revelável).

São formas de não-existências, de sombras e de fantasmas. São anti-retratos, são imagens vacilantes. São espectros do invisível. São o contrário da evidência inabalável. São respirações entre tantas certezas: o espaço aberto para a instalação da dúvida.

 

                                            Neiva Bohns

ALTARES            

             

Uma obra de arte traz implícita em sua gênese uma espécie de breviário, uma coletânea de intenções.  Amparado por uma gama de sensibilidades intuitivas, captadas em sua interação com a realidade circundante, o artista constrói sua arte sabendo que se encontra em território de escassas certezas, visto que a cada instante o aspecto processual da obra impõe-se de forma insistente e desafiadora.  

Vilma Sonaglio, na série “Altares”, parece traduzir em suas obras sintomáticas a constatação de que a arte – como a vida – nos questiona a cada instante sobre a forma como nos apropriamos de seus múltiplos sentidos. 

As imagens criadas por Vilma Sonaglio divorciaram-se do mundo para percorrerem um limbo de espaços turvos e misteriosos, onde a atuação da artista é desafiada por inúmeras possibilidades de resgatar a identidade perdida de vultos maculados, conhecidos por alguns e desconhecidos por muitos. Desta forma, ao repovoar o imaginário do espectador com cenas extraídas de um nicho de afetividades e significados, a artista realiza um questionamento profundo sobre a história pessoal de cada indivíduo, não apenas àqueles dos quais subtraiu identidade e aparência ao serem captados por suas lentes.

Uma atmosfera de perda e ausência é intensificada pelo impacto do negro como cor predominante no conjunto das obras. As imagens excluem-se de um plano documental, propondo que perscrutemos nossas próprias perdas através de um processo de erosão visual, que vai buscar momentos significativos no íntimo de cada lembrança.

As figuras aprisionadas nos “Altares” de Vilma Sonaglio, distanciam-se de um fideísmo ou de qualquer intenção de permanência, visto que foram neutralizadas em seu valor emocional e temporal. Partindo desta neutralidade, a artista revela um aspecto processual de seu trabalho ao buscar no espectador alguma forma de resolução, deixando a imagem inconclusa no plano referencial.

A proposição estética da artista reside em um jogo de resistências que não prevê embuste, e complementa-se com um convite a migrarmos no tempo e revisitar álbuns, porta-retratos e outras formas de sacralização da imagem e suas motivações simbólicas. O grande impasse no final desta migração poderá vir, possivelmente, do fato de termos nos deparado com a transitoriedade da proposta de Vilma, e de novamente termos nos lançado na experiência ambígua da arte que pode, simultaneamente, iluminar tanto a lucidez quanto o devaneio.   

 

Clóvis Da Rolt

Os altares, como Vilma define esta coleção de imagens sombrias, que ela produziu, são cópias ‘solarizadas’ na câmera escura, por um processo de inversão fotoquímica. Este processo funciona como uma  reversão do senso da imagem trazendo à superfície do papel exposto a luz, silhuetas de aparência  metálica e sombria, desvendando algumas das muitas possibilidades experimentais da técnica fotográfica. Entramos através deste estratagema técnico, num universo paralelo, onde os retratos das idades da vida, nascimento, aniversários, encontros de família, cenas pessoais, antes carregadas de afetividade e de significação, são levadas a habitarem insuspeitadas vestes. Como se pudesse haver uma noite de imagens, na qual a vida, na sua repetição e na sua diferença de estilos, modas e modos pudesse morar. Acolhendo sob seu manto um esquema estrutural gregário, estereotipado e arquetipal, este inverno das imagens passa a secretar, para nós expectadores, outras significações. Nesta zona, que se abre ao nosso horizonte psíquico, pelo sentimento ambíguo em face da aparência destas imagens, desaparece a identidade das figuras e seu novo aspecto nos suscita um certo temor. Este Locus Suspectus, passa a ser o lugar onde moram os fantasmas e onde cabem nossas projeções. Neste ir-reconhecimento paradoxal das imagens, ao mesmo tempo em percebemos esquematicamente nossa existência humana, somos acometidos da inquietação do que nos é velado, levando-nos a prospectar sobre o inexorável ciclo da vida e da morte. 

 Ao alterar o estado destas epopéias pessoais, pela solarização, nos impossibilitando de reconhecer alguém nas imagens transformadas, Vilma retira do primeiro plano a noção dedocumento social atribuído a este tipo de imagem.  Através deste anonimato induzido pela técnica, a artista nos revela sombrasda vida. Estas imagens,  perfis esquemáticos e desfigurados exibem como assunto principal nossa fascinação social disseminada pela imagem e pelo culto da memória. 

 

                                                                      Maria Ivone dos Santos

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Instagram Icon
bottom of page