Vilma Sonaglio – Campo Santo
A instalação CAMPO SANTO surgiu a partir de uma experiência pessoal de Vilma em uma viagem a Praga. Diante de um cemitério judaico superlotado, o constante questionamento da artista sobre a relação das pessoas com a fotografia adquiriu outros contornos, trazendo a tona não só a ambigüidade da imagem técnica (permanência de ausências), mas também seu próprio desaparecimento em tempos de câmeras digitais.
CAMPO SANTO é uma sala lotada de porta retratos fantasmagóricos. As imagens não estão sobre esses objetos, elas se fundem com o suporte, são como vestígios de um papel que outrora fora fixado ali. Imagens-rastro, não revelam situações, não identificam personagens, são espectros de um tempo vivido, memória sem nitidez da experiência fixada pelo obturador.
O preenchimento do espaço onde está o CAMPO SANTO é necessariamente realizado do fundo para frente. Imagino a artista nesse gesto de construção da instalação sendo expulsa pelos objetos. Ela está agachada, dispondo os porta retratos, compondo um campo de vultos fotográficos, organizando os suportes para criar um ritmo com as suas formas, recuando, sempre recuando. Uma performance que recusa espectadores, mas cuja ação está sempre latente na obra acabada.
As relações entre esta instalação e as noções de luto são inevitáveis, não só por seus aspectos formais e pela experiência da artista que determinou a sua realização, mas por todas as transformações que a fotografia vem sofrendo nos últimos anos, ainda carentes de reflexão e compreensão ontológica. No entanto, mais do que remeter a uma negatividade sofrida, o luto é presença constante da vida, fazendo parte de qualquer cotidiano em transformação.
Luto: sentimento gerado por perda, frustração, recusa. Logo, há luto sempre.
Viver o luto: debruçar-se sobre o objeto perdido, tocá-lo, ritualizar o seu fim, enterrá-lo, criar um ícone da sua existência. Mas e quando aquilo que morre não se apresenta como algo sem vida? É como um desaparecido político, não há corpo, não há enterro, como viver esse luto?
O fim dos processos tradicionais da revelação fotográfica é como um rio que já não mais irriga uma floresta, mas cujo leito não desaparece por completo. Um fio fino d’água, sempre escorrendo, mas cada vez menos acessível, menos capaz de saciar a sede.
Uma vez que a vida é mortal, só se pode amá-la inteiramente aceitando a morte que ela contém[1].
Gabriela Motta
[1]COMTE-SPONVILLE, André. Bom dia, angústia! São Paulo: Martins Fontes, 1997.