Nas fotos de Sonaglio, o contraste brutal entre o branco e o negro reforça a sensação do desaparecimento do indivíduo no fluxo ininterrupto das grandes ciudades. Figura e fundo, fundidos na superficie do papel e projetados para o espaço real da exposição, reforçam tal interpretação: aquelas imagens não representam mais o ser humano no mundo ( num viés idealista). São índices da alienação e da perda de qualquer espécie de consciencia por parte dos habitantes das metrópoles.
Transeuntes
Numa época de corpos espetaculares, de imagens de altíssima resolução veiculadas na mídia, há artistas que retiram o caráter documental oferecido pelo retrato.
Negar a possibilidade de analisar o corpo pelos recursos simbólicos tão caros ao retrato tradicional, como os caracteres sociais identificadores do indivíduo: fisionomias, roupas e poses estão no centro de determinadas operações plásticas da contemporaneidade.
São justamente esses paradigmas de julgamento que as fotografias de Sonaglio colocam em crise, pois retiram do observador algumas das possibilidades de escrutinamento social do corpo. Julgar o corpo por sua inscrição social é veementemente negado pelos códigos plásticos aos quais a artista recorre. Todos os recursos que, no retrato tradicional eram agregados ao corpo do indivíduo, Sonaglio acaba por desabilitar. O corpo perde seu estatuto de tradução de uma determinada identidade. Isto já se evidencia desde seu primeiro trabalho com o corpo nas obras da série Transeuntes, obtidas por procedimentos de inversão e baixa velocidade no momento de captura,o que resulta mais em superfícies de contornos brancos informes do que propriamente corpos. Esvai-se a descrição iconográfica a ponto de não poder mais se reconhecer como tal, o que contradiz a lógica da fotografia na sua função original suprema de conservar memórias corporais. Não há mais descrição física e muito menos inscrição social.
Niura Legramante Ribeiro
À fotografia geralmente cabe o papel de registrar e refletir, da maneira mais objetiva e precisa, a realidade. Desvirtuar esse papel é uma tarefa a que poucos se atrevem. Vilma Sonaglio se encontra nesse pequeno grupo. Apaixonada pela fotografia desde 1983, quando revelou seu primeiro filme, ainda cursando Artes Plásticas no Instituto de Artes da Ufrgs, a artista desenvolve um trabalho que se notabiliza pela pesquisa, refinado apuro técnico e um olhar que, ao contrário da grande maioria, prima pela desidentificação. Diante de suas fotos, o espectador tem, basicamente, dois tipos de reação: ou vai questionar do que se trata, ou vai se calar, plenamente satisfeito com o impacto das imagens.
A força desse trabalho passa por uma exaustiva pesquisa no território das impressões. Impressões de formas, lugares, momentos, pessoas e, sobretudo, impressões da luz sobre esses elementos - esse foi o tema, aliás, desenvolvido pela fotógrafa na sua tese de Mestrado, definida recentemente no mesmo Instituto de Artes: A Metamorfose da Luz. Procurando refletir seu modo diferente de ver o mundo, Vilma produziu uma série de fotografias em que explora o imaginário e o abstrato. Suas imagens são distorções de situações cotidianas, objetos banais e questionamentos sobre a identidade e o anonimato. É uma linguagem que não prima pela nitidez, tampouco pelo papel documental.
Usando exclusivamente filme preto e branco no formato 35mm e tendo predileção pela Nikon FM2 (totalmente mecânica) e pela lente 100mm, Vilma registra instantes de observação e muita reflexão. Suas fotos são exaustivamente pensadas. Antes de fotografar, ela “clica” com os olhos. Pensa em tudo: enquadramento e efeitos técnicos que usará na revelação para chegar àquela imagem que, por enquanto, está só na sua cabeça.
Vilma não é de gastar rolos e rolos de filme, mas extravasa no papel. Hoje, tem predileção pelas reproduções em grande formato, que chegam a ocupar a largura de uma parede. Para conseguir esse tamanho, costuma ampliar os negativos com o auxílio de um assistente, mas é ortodoxa: não deixa os trabalhos de laboratório para ninguém. “Tenho um fascínio pelo laboratório. Ele te isola do mundo: a luz vermelha, o barulho da água correndo…é um útero. Para mim, ele é fundamental.” Em seu ateliê, no centro da capital, tudo é grande: o laboratório, a parede em fundo branco infinito e as reproduções de suas fotos. Tudo é também muito organizado. “Minha assepsia é quase hospitalar.”
Atualmente, Vilma se divide entre as pesquisas e as aulas ministradas no Instituto de Artes como professora-substituta de Fotografia. “É muito bom passar o conhecimento para outras pessoas e perceber que elas conseguiram descobrir novas coisas a partir daquele conhecimento.” Perfeccionista e inquieta, a artista já teve seu talento agraciado com o Prêmio Brasília de Artes Visuais em dezembro do ano passado. E, por enquanto, pensa muito em continuar estudando. “Eu me utilizo de uma frase que René Passeron disse aqui em Porto Alegre, em 98: ‘…ou o artista faz pesquisa, ou ele tem clientela’ Eu me insiro no grupo dos que me questionam.”
Paula Ramos
Afinal quem somos nós? Seres urbanos que transitam, Indo e vindo, apressados, tecendo uma trama invisível com passos desajeitados. Inseridos no contexto impessoal da cidade grande, em que são raras as oportunidades para o auto-conhecimento, ou o reconhecimento do outro. Estamos imersos na fugacidade dos tempos modernos. Cotidiano de estreitezas, de espaço, de tempo.
Estas questões estão presentes nas imagens de Vilma Sonaglio, na indicação do passo contínuo e apressado de alguém - no ir e vir ininterrupto nas ruas. Seu registro visual das figuras humanas caracteriza-se pela sugestão da forma, concretizada por forte intensidade de luz contra um fundo estrategicamente preto. A intenção não é flagrar cada indivíduo mas delatar seu anonimato.
A impressão fotográfica, para Vilma, possui uma função ambivalente, tanto pode identificar, através de sua capacidade de correspondência com a realidade, como provocar um deslocamento da semelhança, por meio de recursos técnicos ou na escolha do momento do clic, a desidentificação. Ao observarmos as fotografias expostas nesta mostra, fica evidente que, quanto a resolução formal, sua opção converge na direção da Segunda possibilidade - a desidentificação da imagem, seja interferindo no processo técnico, seja na escolha das tomadas.
Porém, contraditoriamente, por mais desidentificadoras que pareçam, suas imagens nos denunciam, reflexivamente, como um espelho negativo. Suas fotos possuem um poder de revelação ao refletir com transparência nossa condição urbana. Queremos destacar aqui a nossa condição de anonimato imposta pela vida numa cidade grande. Estas fotos a despeito da leitura de seus aspectos meramente formais, evidenciam esta condição. Nas imagens de Vilma, nós, homens e mulheres desta cidade, somos flagrados como seres que passam, tecendo invisível trama, somos irremediavelmente delatados pelos seres fantasmáticos congelados nos espaços quadrangulares, que, em sua estranha imobilidade, revelam nossa condição urbana mais frequente: TRANSEUNTES
Maria do Carmo Curtis